Tic-tac

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As horas passaram lentas o dia todo, a febre, a dor no corpo e aquele maldito inferno que consome metade do meu dia. Passei horas com o relogio se arrastando e quando a noite começou a chamar meu nome o relogio me engoliu e tentou me digerir mas eu não permiti, me debati e fui vomitado de volta, pilhas de papeis com erros grotescos foram deixados pra trás. Fugi. Correndo e cantando estalava os dedos enquanto o sax ria da noite e alguém gritava “waca, waca, waca” em meus ouvidos.
O onibus chegou, gosto dele, faz a linha do inferno pro paraíso.

Diário de Bordo

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Acho que é dia 27 de julho.

Naveguei dezoito horas sem parar, esse navio de concreto navega num mar de tinta. Dizem que quando o capitão sai os raos tomam conta só não contaram que isso não acontece em noites de tempestade. Os suprimentos não durarão até o fim do mês, minha maconha ta acabando, não terei remos suficientes pros dois botes que preciso pegar da terra firme até o navio, minha arca tem poucas moedas atiradas no fundo.
Abandonei essa história de porto seguro, quero uma oca numa praia rasa onde navios não possam ancorar.
Desde que vi meu bote vindo e fumei meu ultimo cigarro no mar de asfalto (trecho não navegavel por grandes navios) estou drogado, a ansia de vida, de liberdade, deixa qualquer marujo doidão. Canto alto ignorando o resto, faço caretas e falo sozinho. Espero que setembro acabe logo, antes que eu afunde.

O Paraíso

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Mosquitos me mordam seria a frase perfeita, me mordam que não me importo. Uma roda em volta da fogueira, a chama oscilante da vela projeta a sombra da minha mão sobre o papel, minha rede balança suavemente, de um lado vejo a duna do outro a floresta.
Mata verde e gostosa, acolhedora, aconchegante. Areia fofa de sorvete que desliza pra dentro desse coração vivo escondido em algum canto de alguma ilha por aí. Faixa de terra sagrada e pulsante que separa o mar da lagoa e onde frutas suculentas pendem do pé e caranguejos azuis caminham silenciosamente deixando milhões de pegadas na areia que canta sob meus pés pesados.

O prazer vendido em caixas

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Ahh! A nicotina! Vinte bastões perfeitamente enrolados com o sabor exato para cumprir com o que se espera, aquele cigarro com gosto de companhia na parada do ônibus, o tranquilizante que tu precisa depois do conflito inesperado ou a pausa solene e silenciosa no meio do expediente que soa como um insulto aos olhos do  patrão, puto com a falta de produtividade daqueles rápidos cinco minutos, os mesmo cinco minutos que parecem horas quando sozinho do lado de fora do bar.
Um brinde as longas tragadas de inspiração que crivam o peito de sentimentos silenciosos e as inúmeras conversas que começam com “tens fogo?” e incendeiam a alma enquanto os corpos, como as chamas, se consomem em calor e se acabam na brasa do cigarro que, como a lenha, tenta prolongar os prazeres da noite.
– Sim, pra mim foi ótimo!

(in) Satisfação

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Ressaca e sono, finjo que trabalho e não me decido entre café e água. Facebook, música, boom, faíscas, escuridão, caos. Papel descarregado na chuva se desmancha como açucar e eu me desmancho em letras e louco só penso em correr pelado por baixo das gotas frias. Mentira. Penso mais em transformar essa linha de produção cheia de máquinas imersas na escuridão em um perfeito campo de batalha, Tiros de tinta manchando todas as paredes dessa gráfica velha, o produtor virando produto. . Imprimir nas paredes dessa fortaleza capitalista as verdades do mundo real corpos nús correndo por baixo de gotas frias de aquarela multi colorida.

O artista é a arte.
O obreiro é a obra.
O pedreiro é a pedra.
Não.
O pedreiro é a arte.
O obreiro é o artista.

O artista é uma pedra e Thomas Edson instalou aquele transformador lá for, não é a toa que ele explodiu.
Thomas Edson é meu rei, meu bom rei explodido, me dando algumas horas de folga em mais um dia perdido.